Pela primeira vez desde que o UBS passou a monitorar family offices (estruturas privadas dedicadas à gestão patrimonial de famílias de altíssima renda), 60% dos gestores planejam alterar a alocação de capital neste ano, marcando o patamar mais elevado da série histórica. O levantamento, divulgado na última quinta-feira (28), abrangeu 307 escritórios em mais de 30 países entre janeiro e março e aponta uma mudança estrutural na forma como o capital institucional de ponta — com patrimônio médio de US$ 2,7 bilhões — está sendo posicionado.

O dólar em xeque e a busca por alternativas cambiais

O eixo central da realocação gira em torno da confiança na moeda norte-americana. 65% dos respondentes projetam deterioração no status do dólar como reserva global nos próximos 12 meses, ante apenas 6% que veem cenário de fortalecimento. O diagnóstico reflete o peso da dívida soberana dos EUA, a incerteza geopolítica e o perigo de concentração cambial. No terreno prático, 47% se declaram sobreexpostos ao greenback, enquanto 29% já iniciaram ou avaliam a redução de ativos atrelados à divisa. A estratégia tem migrado para diversificação em euro e franco suíço.

Alocação setorial e a hegemonia norte-americana

A revisão de carteiras segue um padrão de ajuste gradual. Em 2025, apenas 35% dos escritórios projetavam ajustes; o patamar saltou para 60% no atual ciclo, superando o recorde histórico de 37% registrado em edições anteriores. Mercados desenvolvidos mantêm a base, mas ganham inclinação para ações de emergentes e infraestrutura. Entre os que planejam mudanças, a parcela destinada a imóveis recua de 11% para 8%, e o ouro avança de 2% para 3%. Os ativos norte-americanos, contudo, seguem como o pilar dominante, respondendo por 52% do total projetado para 2026. Benjamin Cavalli, da área de clientes estratégicos do UBS Global Wealth Management, sintetiza:

“Os family offices estão ajustando portfólios de forma gradual, diversificando entre ativos, moedas e regiões, ao mesmo tempo em que mantêm exposição a temas de longo prazo como inteligência artificial com maior seletividade.”

A Inteligência Artificial como tema transversal

O setor de IA permanece o vetor de preferência, mesmo com alertas sobre valuations elevados (indicadores que comparam o preço de mercado de um ativo aos seus fundamentos financeiros). 65% dos escritórios já possuem exposição, concentrada em infraestrutura de data centers, plataformas de software e fabricantes de semicondutores. A maioria opta por manter ou ampliar posições. A adesão varia regionalmente, com a América Latina demonstrando entusiasmo acima da média global.

RegiãoExposição ao tema IA
Sudeste Asiático88%
América Latina77%
Ásia do Norte74%
Média Global65%

O que isso significa para o investidor

A movimentação de gestores de alto patrimônio atua como termômetro antecipado de fluxos institucionais. Para o investidor pessoa física no Brasil, a tendência de desdolarização gradual e a migração para reservas alternativas podem impactar a cotação da moeda norte-americana frente ao real, influenciando ativos atrelados ao câmbio e a política monetária doméstica. Com a Selic (taxa básica de juros da economia brasileira) em patamares restritivos e o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) sob monitoramento, a diversificação cambial e a busca por proteção em metais preciosos alinham-se a estratégias de blindagem patrimonial. O investidor deve acompanhar os indicadores de fluxo externo, o prêmio de risco soberano e a curva de juros futura, evitando decisões reativas baseadas apenas em ruídos de curto prazo. A realocação global também reforça a relevância de exposições qualificadas em infraestrutura e mercados emergentes, setores que podem se beneficiar do capital deslocado de posições tradicionais em dólar.

Riscos

A percepção de ameaças muda conforme o prazo analisado, exigindo monitoramento contínuo dos catalisadores macroeconômicos.

  • Próximos 12 meses: Conflito geopolítico lidera com 64% de menções.
  • Horizonte de 5 anos: Crise de dívida soberana (56%) e recessão global (50%) ganham tração como ameaças estruturais.

Os próximos trimestres trarão dados concretos sobre a execução dessas intenções de realocação. Investidores e analistas devem monitorar os relatórios trimestrais de gestoras globais, os fluxos cambiais de longo prazo e a evolução dos spreads de crédito soberano americano para validar a velocidade da transição patrimonial.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.