O Goldman Sachs rebaixou a recomendação sobre o Banco do Brasil (BBAS3) de neutro para venda, ajustando o preço-alvo de R$ 24 para R$ 21. A decisão reflete temores estruturais quanto à deterioração contínua na qualidade da carteira de crédito rural. Às 10h29 desta quarta-feira (29), os papéis da instituição recuavam 2,62%, cotados a R$ 21,95.

Valuation descontado versus risco de provisões

Embora o ativo negocie a múltiplos reduzidos de 6,3 vezes P/L (Preço sobre Lucro) para 2026 e 0,6 vez P/VP (Preço sobre Valor Patrimonial) — patamares inferiores aos 7,9 vezes e 1,5 vez praticados por bancos privados —, a tese de venda prevalece porque os riscos aos lucros e ao guidance (projeções oficiais de resultados divulgadas pela diretoria) superam o potencial de valorização. A projeção atual de provisões (reservas contábeis para cobrir perdas esperadas com calotes) aponta para R$ 64 bilhões em 2026, montante que excede em 10% o teto da faixa oficial de R$ 53 bilhões a R$ 58 bilhões.

Para o 1T26 (primeiro trimestre), a expectativa é de R$ 19 bilhões a R$ 19,1 bilhões, alta de 6% na comparação trimestre contra trimestre e equivalente a 33% do limite anual. Com o crescimento da carteira mais desafiador e a taxa Selic elevada por mais tempo encarecendo o custo de funding (captação de recursos), o lucro líquido estimado cai para R$ 21 bilhões. Esse patamar fica 6% abaixo do piso de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões, mesmo mantendo alíquota efetiva de imposto em 11%. O banco analítico revisou suas estimativas para baixo:

Ano FiscalRevisão GoldmanDesconto vs Consenso Bloomberg
2026Queda de 14%10% abaixo
2027Queda de 10%9% abaixo
2028Queda de 7%12% abaixo

Deterioração acelerada no crédito rural

A inadimplência, medida pelo NPL (Non-Performing Loan, indicador de empréstimos inadimplentes), avançou 60 pontos-base (unidade equivalente a 0,01%) entre dezembro de 2025 e março de 2026. A pressão concentra-se nas linhas de custeio (capital de giro para lavouras), com deterioração de 200 pontos-base entre dezembro e fevereiro. As linhas de investimento rural registraram piora de 60 pontos-base. A administração destacou que 80% das operações de custeio ainda refletem políticas de concessão anteriores à revisão do modelo implementada em meados de 2025. Os 20% restantes, já sob o novo framework, apresentam comportamento de pagamento superior.

Apesar de representar cerca de 30% da carteira total, o segmento rural foi responsável por aproximadamente 60% das provisões no 4T25, que somaram R$ 10,5 bilhões ante R$ 8,8 bilhões no 3T25. Simultaneamente, a cobertura de inadimplência recuou para 158%, patamar distante da média histórica de 223%.

ROE pressionado e cenário macroeconômico

A trajetória de rentabilidade permanece em baixa. O retorno sobre patrimônio, ou ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido, métrica que mede a eficiência na geração de lucro com o capital investido), deve seguir a evolução abaixo:

O ambiente externo agrava a equação. A elevação nos custos de fertilizantes, impulsionada por tensões no Oriente Médio, não encontra respaldo em maior valorização das commodities agrícolas. O cenário doméstico traz inflação mais resistente, ritmo de afrouxamento monetário mais lento e possíveis choques climáticos atrelados ao El Niño.

O que isso significa para o investidor

O reposicionamento do Goldman Sachs indica um ciclo de ajustes operacionais obrigatórios para a instituição. Para o acionista pessoa física, o recado central é de prudência: o desconto no valuation existe para precificar incertezas reais. A necessidade de elevar provisões consome capital que poderia ser direcionado à expansão de negócios saudáveis ou à distribuição de proventos. A rentabilidade só deve se normalizar quando a parcela majoritária da carteira rural migrar para os novos critérios de análise de risco, processo que deve demandar tempo. O investidor deve avaliar se a exposição ao papel compensa a assimetria de riscos em um ciclo de juros ainda restritivo.

Fatores de risco mapeados

  • Deterioração da carteira rural: Concentração de calotes em operações de custeio com lastro em políticas de crédito defasadas.
  • Expansão de provisões: Necessidade de constituir reservas acima do guidance oficial, comprimindo diretamente o lucro líquido.
  • Pressão de funding e macro: Juros prolongados elevam o custo de captação, enquanto choques climáticos e geopolíticos encarecem insumos sem reflexo positivo nas commodities.
  • Desvios de mercado: Revisões consecutivas de lucro para o biênio 2026-2028 ficando consistentemente abaixo do consenso.

Perspectiva e próximos passos

O mercado aguarda os resultados do 2T26 como catalisador determinante. Nessa divulgação, a instituição apresentará os dados de inadimplência acima de 15 dias consolidados até junho, métrica que definirá se a curva de deterioração estabiliza ou se exige novos aportes contábeis. A trajetória da Selic e a volatilidade nos preços de fertilizantes serão variáveis-chave para validar as revisões de múltiplos e a projeção de recuperação do ROE.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.