Com uma defasagem de preços superior a 50% no diesel nas refinarias da Petrobras (PETR3;PETR4), o cenário para a precificação de combustíveis volta ao centro do debate no Conselho de Administração da estatal. A recente eleição de Marcelo Gasparino para o colegiado reacendeu a pressão para o retorno à paridade com o mercado internacional, especialmente com a nomeação de Guilherme Mello para a presidência do Conselho.
O retorno de Gasparino e a pressão por rentabilidade
Marcelo Gasparino, advogado que retorna ao Conselho de Administração da Petrobras após uma breve passagem pelo conselho da Eletrobras (agora parte da Axia), foi direto ao ponto em entrevista à CNN. Ele reforçou que a diretriz estabelecida em 2022 permanece válida: a companhia deve buscar rentabilidade e sustentabilidade, o que implica não se privar da prática de preços de mercado.
Gasparino qualificou o alinhamento de preços como o "grande teste" para a nova administração. Para o conselheiro, a vinda de Guilherme Mello — atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e recém-eleito presidente do Conselho na Assembleia Geral Ordinária — é um fator positivo. Segundo ele, a bagagem de Mello no Ministério da Fazenda lhe confiere plena consciência da importância da Petrobras tanto para os mercados nacional e internacional quanto para as contas do governo, principal acionista e beneficiário dos dividendos.
"Em 2022, que foi um ano complexo, o Conselho definiu que ela tem que perseguir também rentabilidade e sustentabilidade, ela não pode se privar de praticar preços de mercado," afirmou Gasparino.
Histórico de volatilidade e interferências
A discussão sobre preços na Petrobras é marcada por alta tensão política e econômica, especialmente quando o cenário externo se mostra adverso. A tabela abaixo resume eventos recentes onde a política de preços da estatal foi colocada à prova:
| Contexto / Período | Evento ou Indicador | Reação / Desfecho |
|---|---|---|
| 2022 | Petróleo a US$ 140/barril | Queda de dois presidentes da estatal (Joaquim Silva e Luna e José Mauro Coelho) |
| Recentemente | Alta no GLP em leilão | Queda do diretor Claudio Schlosser após críticas do presidente Lula |
| Março (Ano Atual) | Alta internacional do petróleo | Diesel elevado em 11,6%; Gasolina mantida |
A disparidade atual de preços
A atual política de preços da Petrobras, que abandonou a Paridade de Importação de Preços (PPI) em 2023, tem gerado distorções significativas. Enquanto o mercado internacional registra oscilações, a estatal tenta blindar o consumidor interno, o que cria um rombo nas contas da companhia no curto prazo.
Dados levantados indicam que a defasagem do diesel nas refinarias, insumo que depende parcialmente de importação, chegou a patamares críticos:
Atualmente, a defasagem está em 50%, um número que representa um subsídio implícito da estatal ao mercado interno, reduzindo potencialmente os lucros que seriam revertidos em dividendos.
Divisões no Conselho de Administração
Existe um racha claro dentro do Conselho de Administração da Petrobras:
- Acionistas Minoritários: Defendem o reajuste imediato e acompanhamento das cotações internacionais, similar ao praticado nos Estados Unidos, para maximizar o retorno do acionista.
- Indicados pela União: Seguem a diretriz de evitar o repasse da volatilidade externa para o mercado interno, priorizando o controle da inflação no curto prazo.
Com a volta de Gasparino, a ala que pressiona pela equiparação dos preços ganha reforço no debate, argumentando que a companhia, como maior pagadora de dividendos ao Tesouro, deve contribuir mais para as contas públicas através de sua receita operacional, e não via redução de dividendos por conta de controle de preços.
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física, a definição da política de preços é o principal motor de valuation (valorização) da Petrobras. Um cenário de retorno à paridade total (PPI) tende a ser visto com otimismo pelo mercado, potencializando o pagamento de proventos via JCP (Juros sobre Capital Próprio) e dividendos ordinários.
Por outro lado, a interferência política tende a aumentar o Risco Brasil, podendo deprimir as múltiplas da ação em bolsa, mesmo que o setor como um todo esteja favorável. O investidor deve monitorar se a gestão atual conseguirá equilibrar a necessidade de caixa do governo com a saúde financeira de longo prazo da empresa.
Riscos e fatores de atenção
Além da política de preços, outros riscos cercam a operação:
- Instabilidade na Governança: A troca frequente de presidentes e diretoria devido a pressões políticas pode desestabilizar o planejamento estratégico da companhia.
- Cenário Macroeconômico: Uma alta prolongada do petróleo Brent somada ao câmbio desfavorável (dólar alto) encarece as importações de derivados. Se a Petrobras não repassar esse custo, seu resultado operacional é diretamente impactado.
- Risco Regulatório: Mudanças na legislação ou nas diretrizes do acionista控制dor podem alterar a estrutura de remuneração dos acionistas.
Perspectiva e Próximos Passos
O mercado agora volta sua atenção para a gestão de Guilherme Mello à frente do Conselho de Administração. O teste prático será a definição do preço da gasolina e diesel nos próximos reajustes. A capacidade do novo presidente de mediar o interesse do governo com a eficiência da gestão de uma empresa listada na B3 determinará o fluxo de capitais para a ação no médio prazo.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
