A Suzano (SUZB3) reportou demanda sustentada nos Estados Unidos e na Europa no primeiro trimestre, impulsionando a retomada do fluxo de exportações após a redução da tarifa adicional norte-americana de 50% para 10%. Paralelamente, a companhia mantém uma carteira de proteção financeira de US$ 5,6 bilhões, desenhada para mitigar a volatilidade do dólar e projetar aportes entre R$ 200 milhões e R$ 500 milhões no resultado do segundo trimestre, conforme a trajetória do câmbio.

Demanda Geográfica e Readequação Tarifária

A resiliência do consumo de papel e celulose permanece atrelada à natureza inelástica (demanda pouco sensível a variações de preço ou choques externos) dos produtos comercializados. De acordo com o presidente-executivo João Alberto de Abreu, a diretoria abandonou a padronização global de preços, adotando uma estratégia regionalizada para acompanhar as assimetrias geopolíticas. Enquanto a Ásia registrou expansão nas exportações de produtos acabados, o ajuste nas alíquotas americanas permitiu o retorno das remessas diretas do Brasil para os Estados Unidos.

Durante o período de adaptação tributária, a gestão utilizou a América Latina como válvula de escoamento. Mercados como Argentina, Uruguai e Paraguai ganharam destaque pela proximidade logística, embora o executivo reforce que o movimento representa uma adequação tática, e não uma realocação estratégica. A divisão de celulose segue ignorando a concentração regional, mantendo distribuição para mais de 100 países.

Proteção Cambial e Cenários de Câmbio

O gerenciamento do risco cambial ocupa papel central na governança financeira atual. O vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores (CFO), Marcos Assumpção, detalhou que o instrumento de hedge (contratos derivativos utilizados para travar cotações futuras e proteger o caixa) cobre entre 40% e 75% da exposição da empresa à moeda norte-americana. A estrutura opera de forma compensatória: eventuais perdas operacionais derivadas de um câmbio apreciado (fortalecimento da moeda nacional frente à estrangeira) são amortizadas por ganhos na linha financeira.

Cenário Cambial (US$)Cobertura EstimadaResultado Financeiro Projetado (2T)
Manutenção em R$ 5,2240% a 75%Ajuste positivo de aproximadamente R$ 200 milhões
Apreciação para R$ 5,0040% a 75%Recebimento adicional entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões
“É uma carteira muito robusta e que funciona muito bem no momento que temos um câmbio apreciado, que é um risco para a companhia”, avaliou Assumpção.

O que isso significa para o investidor

Para o capital privado nacional, a dinâmica expõe a dualidade típica de exportadoras de commodities: a receita principal em dólares sofre erosão com o fortalecimento do real, enquanto os contratos de proteção geram créditos financeiros. O investidor deve monitorar a correlação inversa entre a cotação da moeda americana e o lucro contábil. Em um ambiente de normalização das tarifas norte-americanas, a priorização de fluxos diretos pode otimizar a margem logística, reduzindo custos de frete e estoque. A política de preços diferenciados por região também sugere que a lucratividade futura dependerá menos de volumes absolutos e mais da capacidade de repasse e gestão de mix. O cenário macro, com a taxa básica de juros (Selic) e a inflação (IPCA) influenciando o custo de capital interno, reforça a importância do caixa gerado pelos derivativos para manter a alavancagem controlada sem comprometer investimentos operacionais.

Riscos Monitorados

  • Volatilidade geopolítica: mudanças abruptas em políticas comerciais podem alterar rotas de exportação e onerar a cadeia logística.
  • Apreciação do real: cotações abaixo da faixa de conforto da diretoria reduzem a competitividade das vendas externas e aumentam a dependência dos ajustes financeiros para equilibrar o balanço.
  • Normalização tarifária incompleta: a estabilidade dos fluxos para os Estados Unidos depende da manutenção da alíquota de 10%, sem retrocessos ou novas barreiras não tarifárias.

A atenção do mercado se volta para a divulgação dos indicadores operacionais do segundo trimestre, com foco na conversão real dos volumes exportados para a América do Norte e na efetiva realização dos ganhos cambiais projetados. A trajetória do dólar frente ao real e a confirmação da demanda inelástica nos mercados desenvolvidos funcionarão como catalisadores para a reavaliação dos múltiplos do setor de papel e celulose.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.