Os analistas do UBS BB revisaram o rating para as ações da ISA Energia (ISAE3, ISAE4), promovendo a classificação de "venda" para "neutro". A atualização eleva o preço-alvo para ações preferenciais de R$ 23,50 para R$ 35,00, sinalizando um potencial de valorização de 22%. O ajuste foi acompanhado por uma reação imediata no mercado: às 11h18 desta quinta-feira (30), o papel ISAE4 registrava alta de 3,24%, cotado a R$ 29,66. A instituição financeira sustenta que a avaliação atual da transmissora já incorpora seus fundamentos robustos e a estabilidade inerente ao setor de utilidade pública, caracterizado por receitas previsíveis e geração de caixa resiliente.
O núcleo da disputa com a Sefaz e os reflexos no caixa
O principal catalisador identificado pelo UBS BB para uma oscilação mais acentuada na cotação reside na resolução da controvérsia com a Secretaria de Fazenda de São Paulo (Sefaz). O litígio remonta ao período estatal da companhia e gira em torno da Lei Estadual 4.819/58, que garantiu benefícios previdenciários a servidores ingressos até 1974. Desde 2025, as partes integram uma Câmara de Conciliação para dirimir o impasse. Atualmente, a Sefaz cobre aproximadamente 80% desses encargos, enquanto a ISA Energia arca com os 20% restantes por determinação judicial, gerando um desembolso anual recorrente de cerca de R$ 200 milhões.
No balanço da empresa, o passivo histórico registrado soma R$ 3,3 bilhões, composto por R$ 2,8 bilhões em repasses não realizados e uma provisão de R$ 516 milhões constituída em 2013, montante que ainda não internaliza a correção de décadas de juros. Para dimensionar o Valor Presente Líquido (VPL, métrica que traz fluxos futuros a valor presente), o banco projeta a aplicação da correção judicial seguida de um deságio de 50% para viabilizar o fim do litígio. Sob essa ótica, o acordo injetaria R$ 2,4 bilhões nos cofres da companhia, equivalente a um acréscimo de R$ 3,60 no valor justo por ação. A indefinição dos termos finais pode alterar o preço-alvo em até R$ 15,80 por papel. Enquanto o mercado precifica um desfecho para o final de 2027, a análise institucional trabalha com a concretização no primeiro trimestre de 2027 (1T27).
| Indicador Financeiro (Disputa Sefaz) | Valor |
|---|---|
| Reembolso Sefaz vs. Complemento ISA | 80% / 20% |
| Desembolso anual atual da ISA | ~R$ 200 milhões |
| Passivo histórico em balanço | R$ 3,3 bilhões |
| Impacto positivo no VPL com acordo (desconto de 50%) | R$ 2,4 bilhões |
| Variância potencial no preço-alvo | Até R$ 15,80 por ação |
Concessões, base regulatória e ciclo de investimentos
A operação paulista opera sob o modelo de Base de Ativos Regulatórios (RAB, do inglês Regulatory Asset Base), estrutura que remunera o capital investido pela transmissora. A concessão, prorrogada pela Medida Provisória 579 em 2012 e válida até 2042, apresenta uma RAB bruta de R$ 32 bilhões. Contudo, a maturidade da rede resulta em R$ 17,7 bilhões totalmente depreciados, deixando a RAB líquida em R$ 6,6 bilhões. Essa configuração abre espaço para a alocação estratégica de capital em modernização e manutenção, já que tais aportes não dependem de licitações e são absorvidos diretamente na base de ativos. A remuneração desses investimentos segue um Custo Médio Ponderado de Capital (WACC, do inglês Weighted Average Cost of Capital) regulatório pré-imposto fixado em 12,11%.
Para expansão do portfólio e alongamento da vida útil dos contratos, a ISA Energia desenvolve quatro novos empreendimentos: Piraquê, Jacarandá, Serra Dourada e Itatiaia. O conjunto deve gerar Receita Anual Permitida (RAP, remuneração regulatória garantida pela agência) de R$ 929 milhões no ciclo 2025/26, demandando gastos de capital (capex) projetados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) em R$ 10,9 bilhões.
| Novas Concessões | Entrada em Operação | RAP Projetada (Ciclo 25/26) |
|---|---|---|
| Piraquê e Jacarandá | 2T26 | R$ 929 milhões |
| Serra Dourada e Itatiaia | Meios de 2028 |
Revisão metodológica e dinâmica acionária
O banco alterou a métrica de avaliação, abandonando o Fluxo de Caixa Descontado ao Acionista (DCF FCFE, modelo que traz os fluxos disponíveis aos sócios a valor presente) e adotando um múltiplo de 8,1 vezes Valor da Empresa (EV) sobre Lucro antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (Ebitda). O multiplicador baseia-se na média histórica quinquenal, aplicada às projeções para 2027, refletindo a migração para múltiplos de mercado mais adequados a ativos de infraestrutura em fase de maturação. No espectro acionário, a Axia (AXIA3) detém participação de 21,6% na transmissora. O recente descasamento de ativos nas concessões Madeira e Garanhuns, somado à conversão de ações ordinárias para preferenciais pela Axia, levanta a hipótese de uma eventual reestruturação societária ou saída do sócio.
O que isso significa para o investidor
A reclassificação reflete uma maturação na precificação dos ativos de transmissão, setor tradicionalmente defensivo frente a ciclos econômicos mais voláteis. Para o investidor pessoa física, a tese atual equilibra a visibilidade de caixa garantida pela regulação com a incerteza de passivos contingentes. Em um cenário macroeconômico de taxa Selic em patamares elevados, a previsibilidade de fluxo de caixa das concessionárias mantém o atrativo de remuneração real frente à renda fixa. A taxa interna de retorno (TIR, indicador que mede a rentabilidade esperada de um fluxo de caixa) real alavancada de 13,0% indica que o prêmio de risco atual se encontra em patamar equilibrado. A definição da pendência com a Sefaz atuará como um divisor de águas: um acordo favorável liberará caixa para alavancagem de novos projetos ou distribuição de proventos, enquanto um desfecho adverso ou protelado pode pressionar a margem operacional e adiar investimentos. A indexação dos contratos a indicadores de inflação e a neutralidade cambial das concessões reforçam a proteção do patrimônio contra a deterioração do poder de compra.
Riscos monitorados
A análise do UBS BB e a estrutura operacional da ISA Energia apontam para vetores de risco que exigem acompanhamento contínuo:
- Desfecho da Câmara de Conciliação com a Sefaz, que pode resultar em valores de liquidação distintos dos R$ 2,4 bilhões projetados, impactando diretamente a geração de caixa futura e a política de remuneração aos acionistas.
- Pressão de venda no mercado secundário decorrente da participação de 21,6% da Axia (AXIA3), cujo movimento de recompra ou alienação de ISAE4 pode criar volatilidade circunstancial (overhang).
- Desvios no cronograma de entrada em operação dos novos ativos (Piraquê, Jacarandá, Serra Dourada e Itatiaia), o que afetaria a incorporação da RAP de R$ 929 milhões ao faturamento regulado e o retorno sobre o capex de R$ 10,9 bilhões.
- Mudanças na regulação setorial pela ANEEL, especialmente ajustes futuros no WACC pré-imposto de 12,11% ou nas regras de revisão tarifária das concessões maduras, que podem alterar a equação de retorno da RAB líquida de R$ 6,6 bilhões.
Perspectiva e próximos passos
Os olhos do mercado devem permanecer fixos nos comunicados oficiais da Câmara de Conciliação e nas demonstrações financeiras do primeiro trimestre de 2026, que trarão as primeiras evidências tangíveis sobre a execução do cronograma de capex e o andamento das tratativas judiciais. A materialização do acordo com a Sefaz no 1T27, conforme cenário base da instituição, e a sincronia das comissionamentos em 2026 e 2028 serão os vetores determinantes para validar a tese de valorização até o novo patamar de referência.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
